Prof. Wagner Silva Dantas
Grande referência mundial na área da medicina do exercício, o Dr. Cláudio Gil S. Araújo comenta as dificuldades da classe médica em indicar a prática sistemática de exercícios físicos com finalidade clínica ou meramente para indivíduos que querem obter uma melhora e/ou manutenção do estado de saúde.
Dose ideal de exercício físico para a saúde
Claudio Gil S. Araújo (Diretor-médico da Clínica de Medicina do Exercício (CLINIMEX) e coordenador do Curso de Especialização em Medicina do Exercício e do Esporte (MEE) da Universidade Estácio de Sá (UNESA) no Rio de Janeiro)
E nvolvido física e mentalmente com a área de exercício e esporte há mais de 30 anos, desfrutei de oportunidades ímpares durante minha formação acadêmica e atuação profissional, de estudar, pesquisar e aplicar os conhecimentos de fisiologia e de medicina do exercício e interagir com renomados profissionais e pesquisadores. Inicialmente como aluno da graduação em medicina no Laboratório de Fisiologia do Exercício da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LABOFISE/UFRJ); durante o internato na McMaster University, no Canadá; e depois como médico, no programa de reabilitação cardíaca do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ) durante 18 anos. Desde 1994, atuando na Clínica de Medicina do Exercício (CLINIMEX), no âmbito privado, realizando avaliações e liderando o programa de exercício supervisionado. Ao longo dessa trajetória já atendi alguns milhares de indivíduos que buscavam orientação para melhorar seu desempenho físico, seja no esporte competitivo seja na luta pela sobrevivência diante de uma enfermidade muitas vezes grave e debilitante. Em paralelo, pude acompanhar de perto as dificuldades dos médicos em indicar e prescrever exercício físico, não somente para os enfermos, mas principalmente para aqueles que desejavam utilizar essa importante ferramenta - exercício físico regular - para a promoção e a manutenção da saúde. Esse texto visa oferecer, de forma concisa e prática, uma orientação clínica sobre a dose mais apropriada de exercício aeróbico para a saúde. O hábito de praticar exercício físico é considerado saudável desde a Antigüidade. Ao longo do tempo, inúmeras evidências científicas foram obtidas em relação aos benefícios do exercício aeróbico para a saúde. Durante um exercício físico, diversos mecanismos fisiológicos entram em funcionamento para manter a homeostasia, minimizando as variações de pH e das pressões parciais de O2 e de CO2 nos tecidos, dissipando o calor produzido e proporcionando substratos energéticos para as fibras musculares(1). Os organismos mais capazes de lidar com as demandas de um exercício apresentam características favoráveis para a sobrevivência, fato já observado por Charles Darwin em seu livro A origem das espécies, publicado em 1909. Estudos epidemiológicos mais recentes de diversos países(2, 3) confirmaram que os indivíduos com maior condição aeróbica (VO2 máximo) tendem a ser mais longevos, com diferenças de até cinco vezes na taxa de mortalidade anual, quando se comparam os 20% com menor e os 20% com maior condição aeróbica.
Todavia indivíduos de melhor condição aeróbica muito freqüentemente tendem a ser também aqueles mais fisicamente ativos. Surge então uma pergunta importante: o que é mais importante para a saúde, ter boa condição aeróbica ou ser fisicamente ativo? Enquanto é verdade que o exercício regular melhora a condição aeróbica, especialmente naqueles com valores iniciais mais baixos, boa parte dessa condição é geneticamente herdada. Certamente cada um de nós conhece alguém que, mesmo sem ser fisicamente ativo, consegue bom resultado em práticas desportivas ou até em um teste de exercício. Ao rever a literatura sobre esse tema, o Dr. Paul Williams (4) concluiu que a condição aeróbica do indivíduo é mais importante do que o padrão regular de exercícios para a prevenção de morte por causas cardiovasculares.
Portanto, sabendo que a condição aeróbica é mais importante e que se o indivíduo não a possui geneticamente alta, a melhor opção é ser fisicamente ativo exatamente para melhorá-la; a próxima questão relevante é analisar a melhor combinação de freqüência, duração e intensidade do exercício aeróbico. Provavelmente, os estudos conduzidos pelo Dr. Ralph Paffenbarger et al. nos ex-alunos da Harvard University(5, 6) foram os que mais objetivamente identificaram, entre os três itens, a intensidade como a variável mais importante.
O fato representa um certo retorno à conduta dos anos 1980, quando a intensidade era bastante valorizada, pois alguns documentos institucionais dos últimos anos preconizavam que exercícios moderados já trariam benefícios importantes. Isso foi mais recentemente confirmado por dados escandinavos(7, 8), com um seguimento de 12 anos em mais de 7 mil indivíduos de ambos os sexos, indicando que a duração da sessão aeróbica não parecia ser crítica(7) e demonstrando que apenas uma única sessão de exercício intenso semanal já induzia considerável dose de proteção(8).
Especialmente para aquele que possui baixa condição aeróbica, o exercício físico aeróbico precisa ser regular e de alta intensidade, ou seja, suplantar, eventualmente e por alguns minutos, o limiar anaeróbico (no desconhecimento desse, exceder 70% do VO2 máximo ou atribuir nota de sensação de esforço superior a 7 em uma escala de 0 a 10). Uma técnica empírica e simples para avaliar se a intensidade do exercício é apenas leve ou moderada, e não vigorosa ou alta, é constatar se o indivíduo consegue manter uma conversação ou contar em voz baixa de um a sete sem precisar interromper para respirar ou sem apresentar grande dificuldade para fazê-lo.
Muito embora pareça claro que se tornar fisicamente ativo, como, por exemplo, caminhar 30 minutos na maioria dos dias, já proporciona alguns benefícios fisiológicos e clínicos, o médico deve procurar oferecer e orientar uma dose ótima de exercício físico. Assim sendo, cacaminhadas de 30 minutos na maioria dos dias representam, muito provavelmente, dose insuficiente para a promoção da saúde em homem ou mulher de meia-idade. Para alcançar uma intensidade ótima, muitas vezes será necessário correr, pedalar, nadar ou participar de atividades desportivas.
Finalizando, à luz das evidências parece claro que o médico deve recomendar e prescrever o exercício físico aeróbico para a promoção e a manutenção da saúde e que uma intensidade alta (ainda que eventual) parece ser mais importante do que a duração da sessão e a freqüência semanal, especialmente naqueles que possuem condição aeróbica baixa por base genética desfavorável e/ou por sedentarismo.
Referências bibliográficas
1. Araújo CGS. Fisiologia do exercício físico e hipertensão arterial: uma breve introdução. Hipertensão 2001; 4(3): 78-83.
2. Laukkanen JA, Lakka TA, Rauramaa R, et al. Cardiovascular fitness as a predictor of mortality in men. Arch Intern Med 2001; 161(6): 825-31.
3. Myers J, Prakash M, Froelicher V, et al. Exercise capacity and mortality among men referred for exercise testing. N Engl J Med 2002; 346(11): 793-801.
4. Williams PT. Physical fitness and activity as separate heart disease risk factors: a meta-analysis. Med Sci Sports Exerc 2001; 33(5): 754-61.
5. Lee IM, Sesso HD, Oguma Y, Paffenbarger Jr. RS. Relative intensity of physical activity and risk of coronary heart disease. Circulation 2003; 107(8): 1110-6.
6. Paffenbarger Jr. RS, Lee IM. Physical activity and fitness for health and longevity. Res Q Exerc Sport 1996; 67(3 Suppl): S11-28.
7. Schnohr P, Scharling H, Jensen JS. Intensity versus duration of walking, impact on mortality: the Copenhagen City Heart Study. Eur J Cardiovasc Prev Rehabil 2007; 14(1): 72-8.
8. Wisloff U, Nilsen TI, Droyvold WB, Morkved S, et al. A single weekly bout of exercise may reduce cardiovascular mortality: how little pain for cardiac gain? “The HUNT study, Norway”. Eur J Cardiovasc Prev Rehabil 2006; 13(5): 798-804.