O exercício físico reduz o risco cardiovascular na Apnéia Obstrutiva do Sono

Por Prof. Wagner Silva Dantas

apneia1Muitas anormalidades cardiovasculares vêm sendo associadas às doenças respiratórias do sono nos últimos anos. Desde os anos 70, foi demonstrada a relação de pacientes apenas roncadores, sem ainda apresentarem apnéia, ao surgimento de doenças cardiovasculares. Este estado intermediário composto de roncadores é chamado de Resistência de Vias Aéreas (SRVA), onde os pacientes roncam, mostram certa dificuldade respiratória e fragmentam o sono, sem abaixar a oxigenação do sangue. Já os portadores de Apnéia Obstrutiva do Sono (AS), além do ronco e fragmentação do sono, fazem pausas respiratórias francas e abaixam a oxigenação do sangue.
1) Aumento do tônus simpático (descarga de adrenalina no sangue), por si só já eleva o risco cardiovascular, pois estimula um conjunto de alterações chamado de Síndrome Metabólica, responsável por inúmeros fenômenos como, hipertensão arterial, resistência insulínica (estado pré-diabético), dislipidemia (elevação do Triglicérides e redução do colesterol “protetor” HDL), redução da sensibilidade a Leptina (hormônio que contribui para a regulação da saciedade alimentar) propiciando tendência a obesidade. Outros efeitos decorrentes da elevação do tônus simpático devem ser salientados, como a facilitação à arritmias cardíacas, a maior dificuldade em tratar adequadamente as insuficiências cardíacas, estimulação de outros hormônios que ocorrem em situações de estresse e a reação inflamatória sistêmica com alterações das citoquinas (substâncias que participam da inflamação).
2) Aumento de pressões trans-murais ventriculares (aumento das diferenças de pressões dentro e fora do coração) contribuindo para a hipertrofia cardíaca e até para insuficiência cardíaca.
3) A aterogênese (acúmulo de gordura dentro das artérias, inclusive das coronárias) juntamente com o aumento da coagulobilidade (tendência a fazer coágulos sanguíneos), aumentando a possibilidade de infarto cardíaco e AVC.
4) Estresse Oxidativo, que seria uma liberação de radicais livres após o fenômeno de hipóxia / reoxigenação, ou seja, uma redução da oxigenação durante a apnéia (pausa respiratória), seguida por um micro-despertar, que estimula uma hiperpnéia (vários “suspiros”), que elevam muito a taxa de oxigenação (reoxigenação) que estava muito baixa em um período imediatamente anterior (durante a apnéia). Estes radicais livres têm uma participação substancial na elevação do risco cardiovascular.
5) AVC (acidente vascular cerebral), muitas vezes como resultado de apnéias devido a hipóxia (baixa oxigenação) e/ou doença vascular (ampliada pela quadros apneicos), pode também ter um papel causador de apnéias, onde muitos pacientes desenvolvem pausas respiratórias cíclicas durante o sono, imediatamente após um evento de AVC. Estas podem perdurar por até algumas semanas e em casos onde haja uma denervação (ausência de nervos) regional da faringe, perdurar por toda a vida.
6) Doença Hipertensiva da Gravidez (Eclampsia / Pré-eclampsia), onde gestantes tendem a apresentar hipertensão arterial de difícil controle, principalmente nos últimos meses da gravidez, levando muitas vezes a prejuízo para a criança e antecipação do parto. Já é estabelecida relação estreita deste fenômeno com a ocorrência de Apnéia Obstrutiva do Sono durante este período gestacional. Após a reversão da apnéia com CPAP (aparelho auxiliar à respiração), há uma facilitação no controle da pressão arterial materna.
7) Aumento do risco cirúrgico em pacientes obesos, principalmente àqueles a serem submetidos a cirurgias bariátricas (obesos mórbidos). Este grupo de pacientes é mais susceptível a apresentar Apnéia Obstrutiva do Sono, com todas as manifestações do desequilíbrio metabólico e inflamatório já no pré-operatório, elevação do número de apnéias imediatamente após e nos próximos dois dias subseqüentes. Isso faz com que haja um maior número de complicações pós-cirúrgicas.

A atenção atual aos distúrbios do sono pode, não somente melhorar a qualidade de vida do paciente, mas também reduzir os riscos cardiovasculares. O treinamento físico tem-se mostrado uma medida não farmacológica eficaz na redução do risco cardiovascular. Neste sentido, um estudo de Ueno et al. (2009) publicado na revista Sleep demosntrou que um programa de 4 meses de treinamento aeróbio em pacientes cardiopatas com diagnóstico de AOS  melhorou a atividade nervosa simpática, fluxo sanguineo, capacidade funcional e qualidade vida nesses pacientes. O treinamento aeróbio também melhorou o quadro de AOS nos pacientes graves, a saturação de oxigênio e o padrão do sono independente da perda de peso corporal.

Esses achados provam a necessidade de conhecimento específico por parte do profissional de Educação Física na prescrição do exercício físico com enfoque clínico na redução do risco cardiovascular pertinente a AOS.

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