O auto-exame da mama em xeque

exame-de-mama-grandePor Prof. Wagner Silva Dantas

 O renomado cirurgião oncológico do HSL escreve sobre a polêmica do auto-exame das mamas nas mulheres como medida de prevenção do câncer de mama.

Dr. José Luiz Barbosa Bevilacqua (Mastologista e Cirurgião Oncológico do Hospital Sírio Libanês). 

Muito se tem falado de prevenção do câncer de mama, sobretudo nos últimos anos, com a ajuda da mídia na divulgação de campanhas. Nessa luta pela popularização do conhecimento da doença, o auto-exame tem ocupado um espaço singular, como um grande aliado da mulher. No entanto, os dados científicos mostram que seu papel como prevenção, se existir, é muito limitado. Recentes estudos, inclusive, sugerem que este pode ser até mesmo prejudicial à saúde por aumentar o numero de biópsias desnecessárias, provocar ansiedade e medo entre as mulheres.

Devemos fazer uma distinção entre um achado acidental de um câncer de mama pela mulher e um achado feito pelo auto-exame, com “data e hora marcadas”. Essa diferença dificulta a análise dos dados e confunde muito as pacientes. Isso pode gerar distorções e críticas aos resultados dos estudos. Por isso, os estudos prospectivos e randomizados são considerados o padrão ouro.

Uma meta-análise publicada no British Journal of Cancer ( Hackshaw & Paul, 2003) analisou 23 estudos publicados sobre o assunto; destes, somente três eram prospectivos, sendo dois prospectivos e randomizados. Todos os retrospectivos em que houve a preocupação em diferenciar o achado acidental do auto-exame falharam em mostrar a eficácia deste último na diminuição de mortalidade por câncer de mama ou na diminuição do diagnóstico em fase avançada da doença.

Os dois únicos estudos prospectivos e randomizados publicados até o momento, um russo (Semiglazov, 2003 e 2004) e outro chinês (Thomas, 2002), foram patrocinados, respectivamente, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Instituto Nacional do Câncer (NCI) dos EUA. Esses também revelaram a ineficácia do auto-exame para diminuição de mortalidade por câncer de mama. Outros dados interessantes são que em ambos os estudos, nos grupos de mulheres que realizaram o auto-exame houve 50% a mais de biópsias e duas vezes mais consultas não programadas, e não houve diferenças significativas no número de casos de câncer diagnosticados entre os grupos de auto-exame e os controles.

O auto-exame, portanto, deve ser encarado mais como um método de percepção do estado normal da mama do que uma forma de prevenção de câncer. Se algo diferente ou anormal for notado pela mulher (por exemplo, nódulo, derrame, papilar ou alterações cutâneas) a recomendação é procurar um especialista para que os sintomas sejam esclarecidos.

Sabidamente a mamografia é, atualmente, a principal ferramenta de rastreamento para o diagnóstico precoce desse tipo de câncer e diminuição de mortalidade. A ressonância magnética (RNM) de mama tem-se mostrado o exame mais promissor no rastreamento da doença. No congresso do Colégio Americano de Cirurgiões Oncológicos de 2003, dois dos cinco mais importantes trabalhos mostraram que a RNM é o exame mais eficaz no rastreamento de câncer de mama em mulheres com risco hereditário (Kriege, 2003 & Kuhl, 2003).

Não podemos mais dar informações distorcidas ou incompletas à sociedade sobre métodos ineficazes de prevenção de câncer, como o auto-exame. O Ministério da Saúde lançou no dia 1º de abril de 2004 o Consenso no Controle do Câncer de Mama, este recomenda o exame clínico anual a partir dos 40 anos e a mamografia anual entre 50 e 69 anos de idade. Nas mulheres com risco elevado para a doença foi recomendado o exame clínico e a mamografia anual a partir dos 35 anos.

No Estado de São Paulo, porém, a faixa etária de maior incidência de câncer de mama está entre 40 e 49 anos (Fundação Oncocentro de São Paulo, 2001), portanto fora da recomendação do Ministério da Saúde para o rastreamento mamográfico. Nos países com perfil socioeconômico e incidência da doença comparáveis ao do Estado de São Paulo, como por exemplo, os EUA, recomendam-se mamografia anual a partir dos 40 anos de idade na mulher com risco populacional. Nesses países onde o rastreamento por mamografia está bem difundido desde meados da década de 80, observou-se uma diminuição progressiva da mortalidade por câncer de mama desde o inicio da década de 90 (OMS, 2001).

Por isso, num país como o nosso, com escassos recursos para a área de saúde e grandes diferenças regionais, faz-se necessária uma discussão ainda mais ampla, envolvendo governos (federal e estaduais), sociedade e comunidade científica, sobre as ações mais eficazes de prevenção de câncer de mama.

3 Comentário(s)! Comente mais!

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    Postado em 07/07/2011
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    Postado em 08/07/2011
  3. milla

    Vejo o auto-exame como uma forma de incentivo ao cuidado com o próprio corpo e uma porta de entrada da mulher no sistema de saúde. Se há um aumento nos números de biopsias e outros exames desnecessários, n são elas q o solicitam e sim os q as avaliam, onde então estaria o problema?

    Postado em 22/10/2011

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