Prof. Wagner Silva Dantas
As evidências atuais mostram um maior benefício na utilização do treinamento intervalado quando comparado com o treinamento contínuo em diversos aspectos clínicos que envolvem o exercício. Neste texto, a Dra. Paula Barbosa Baptista Moreira mostra alguns efeitos do treinamento intervalado nas cardiopatias bem como as questões metodológicas da utilização do método.
Treinamento aeróbico intervalado: uma opção também para cardiopatas
Paula Barbosa Baptista Moreira
Mestra em Cardiologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Especialista em Medicina do Esporte pela Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte e Associação Médica Brasileira (SBME/AMB)
O treinamento intervalado (TI) é frequentemente utilizado na prática desportiva, com a principal vantagem de oferecer a possibilidade de aumentar expressivamenteo volume da carga treinada e, assim, intensificar a ação do treinamento sobre o organismosem o aumento de efeitos negativos. Na prática da reabilitação cardíaca, situação emque os pacientes costumam acumular múltiplas comorbidades, como dislipidemia e obesidade,o seu uso pode facilitar o planejamento da recuperação de sua capacidade funcional paraum retorno mais rápido para a vida produtiva.
O TI caracteriza-se por curtos períodos de trabalho(exercício em alta intensidade), chamados de intervalos-trabalho, alternados com períodosde recuperação (exercício de leve intensidade ou nenhum exercício), chamados de intervalosrecuperação,que são repetidos em sequências dentro de uma mesma série de exercícios. O racionaldessa metodologia é que os períodos de recuperação sirvam de base para se conseguir arealização dos curtos períodos em alta intensidade de exercício, os quais não seriam possíveis seo exercício fosse do tipo contínuo (steady-state). Na literatura, um dos autores que mais contribuiupara o entendimento e a aplicação do TI em cardiopatas foi a Dra. Katharina Meyer.
Seusestudos evidenciaram aumento em média de 24% no limiar ventilatório e de 20% no volumede oxigênio (VO2) pico com apenas três semanas de TI em cicloergômetro, um aumento similar ao encontrado poroutros que usaram a metodologia contínua em um período mais longo de treinamento. Além disso, apesarde a carga total ser marcadamente maior no TI em comparação com o treinamentocontínuo, o estresse cardiovascular, a percepção subjetiva de esforço e o nível de catecolaminascirculantes foram menores no modelo intervalado, enquanto somente o nível de lactato foi maior, indicando intensoestresse periférico. Em adendo, o ganho na fração de ejeção do ventrículo esquerdo (VE) foi similar nas duasestratégias de treinamento Mas como podemos fazê-lo na prática? Em primeiro lugar, não devemos esquecerque as variáveis relacionadas com o exercício (intensidade, duração, frequência e tipo) devem interagiradequadamente.
No TI, o fundamental é manter duração do intervalo-trabalho inversamente proporcionalà intensidade (estímulos mais intensos = curto intervalo de tempo) e enfatizar o desenvolvimento da condição.A intensidade a ser utilizada no intervalo- trabalho pode ser baseada nos percentuais comumente utilizados para aprescrição aeróbica (porcentagem da frequência cardíaca [FC], porcentagem do VO2 pico, porcentagem dos limiaresventilatórios) ou ainda pelo modelo proposto pela Dra. Meyer, que consiste em utilizar um percentual do maximumshort-term exercice capacity (MSEC). O MSEC pode ser conseguido por meio da realização do steep ramp test. Esseteste é realizado em ciclo ergômetro com os três primeiros minutos sem carga e, a partir de então, 25 w a cada 10segundos até a exaustão máxima. A carga máxima alcançada é chamada de MSEC, e um percentual dela pode servirpara a prescrição.
A eficácia do treinamento intervalado depende da escolha correta entre os intervalos de trabalhoe a recuperação. Como recomendação no cicloergômetro, podemos manter as relações 30/60, 15/60, 10/60, paraintervalos-trabalho e recuperação, respectivamente, lembrando que a intensidade e a duração devem estarinversamente relacionadas. Recomenda-se também que nos três primeiros ciclos de intervalo-trabalho a carga sejapaulatinamente incrementada até que no quarto intervalo-trabalho se obtenha a carga preconizada.
Para treinamento em esteira rolante, sugere-se manter relação de 60/60, podendo a intensidade ser ajustada para a FCtolerada pelo paciente durante o treinamento intervalado do cicloergômetro. Em termos de duração e frequência,podemos utilizar as recomendações gerais existentes para o treinamento aeróbico de cardiopatas, assim,inicialmente, a condição clínica e a capacidade funcional atual podem nos guiar. Então, para aqueles em que atolerância ao exercício esteja gravemente comprometida (< 3 METs), podem se utilizar sessões com duração decinco a 10 minutos diariamente; naqueles em que a capacidade funcional esteja entre três e cinco METs, uma a duassessões por dia de 15 minutos; e para os que possuem mais de cinco METs, 20 a 30 minutos, três a cinco vezes porsemana. O treinamento deve ser gradualmente aumentado, respeitando-se os sinais de adaptação individual.
Finalizando, o TI em cardiopatas, se prescrito adequadamente, permitirá uma adaptação mais fácil da musculaturaesquelética para suportar treinamento contínuo de mais intensidade, de forma mais gradativa e mais assimilável.Além disso, quebrará a monotonia do treinamento, podendo ser um forte coadjuvante na perspectiva de perda demassa gordurosa pelo maior dispêndio calórico total gerado numa sessão de exercícios e pela elevaçãoproporcionalmente maior do metabolismo basal que ocorre nas horas seguintes à realização da sessão de TI.
Bibliografia recomendada
1. Wisloff U, Stoylen A, Loennechen J, et al. Superior cardiovascular effect of aerobic interval training versus moderate continuous training in heart failure patients. Circulation 2007; 115: 3086-94.
2. Meyer K, Schwaibold M, Westbrook S, et al. Effects of short-term exercise training and activity restriction on functional capacity in patients with severe chronic congestive heart failure. Am J Cardiol 1996; 78: 1017-22.
3. Meyer K, Lehmann M, Sünder G, et al. Interval versus continuous exercise training after coronary bypass surgery: a comparison of training-induced acute reactions with respect to effectivity of exercise methods. Clin Cardiol 1990; 13: 851-9.
4. Meyer K. Exercise training in heart failure: recommendations based on current research. Med Sci Sports Exerc 2001; 33: 525-31.5. Meyer K., Foster C., Georgakopoulos, et al. Comparison of left ventricular function during interval versus steady-state exercice training in patients with chronic congestive heart failure. Am J Cardiol 1998; 82: 1382-7.


5 Comentário(s)! Comente mais!
muito bom…
Eu achei bom este artigo. As pessoas com cardiopatias requerem um cuidado especial, por isso é de suma importância uma avaliação da aptidão física com regularidade. Para mostrar aos pacientes a sua evolução.
De fato, Fernando.
Um dos pontos cruciais da rebailitação cardiovascular é evidenciar a melhora clínica através do exercício físico para o aluno/paciente. Apenas, gosto de pensar na idéia que os cardiopatas não necessitam de cuidados especiais, mas, uma “atenção diferencial”. Digo aos meus alunos que “cuidados especiais” denota limitação de qualquer origem. Nem sempre o acometimento cardiovascular gera limitação, mas, gera cuidados especiais levando em conta a história clínica, histórico de exercício físico e situação clínica pós-acometimento cardiovascular.
Abraços
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