Sopro cardíaco na criança fisicamente ativa: quando iniciar exames complementares?

Prof. Wagner Silva Dantas

Importante texto para profs. de educação física escolar e pais que enfrentam essa frequente questão com seus filhos.

Julio Cesar Moraes Lovisi

Mestre em Cardiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); especialista em Medicina Esportiva pela Associação Médica Brasileira (AMB); diretor da Cuore - Clínica de Reabilitação Cardiovascular e Medicina do Exercício, Juiz de Fora (MG)

Sara da Silva Guedes

Especialista em Cardiologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC)

Os recentes e trágicos episódios en­volvendo atletas durante a prática desportiva tornou ainda mais fre­qüente uma questão já comum em nossa prática diária: a avaliação de crianças e ado­lescentes visando sua liberação para ativida­des físicas.

A importância da atividade física para adultos e crianças está claramente estabelecida na atualidade. A criança fisicamente ativa expe­rimenta efeitos benéficos não apenas sob o ponto de vista orgânico, mas também sob os aspectos sociais e emocionais. Variáveis como perfis lipídico e metabólico equilibrados, crescimento adequado, menor prevalência de obesidade, maior integração com colegas e melhor adaptação para lidar com sucessos ou pequenas perdas são apenas alguns dos benefícios experimentados por crianças com atividades físicas regulares. Uma criança fisi­camente ativa certamente estabelecerá ba­ses sólidas para tornar-se um adulto também ativo, mais saudável e com melhor qualidade de vida.

A atividade física nas crianças deve visar, prioritariamente, o desenvolvimento de há­bitos saudáveis. É importante ressaltar, que sob linhas gerais, a fisiologia do esforço apresenta aspectos semelhantes nos adul­tos, nos adolescentes e nas crianças, embo­ra nesses últimos, cuidados especiais sejam necessários, notadamente nos aspectos de termorregulação e hidratação.

Portanto, na avaliação inicial da criança, deve-se estabelecer claramente o tipo, a in­tensidade e a natureza da atividade (se com­petitiva ou não) e as cobranças que dela po­dem resultar.

Não existe ainda na literatura especializada consenso para definição dos passos a serem seguidos na avaliação de crianças e jovens fisicamente ativos, nem há uma sistematiza­ção de bateria de testes com custo/efetivi­dade aceitáveis para esse fim. Nos Estados Unidos a aplicação de questionários pré-participação para crianças tem apresentado falhas, principalmente na precisão e na qua­lidade das informações. Por outro lado, a es­tratégia européia pautada no grupo italiano, que utiliza como base a anamnese e o exame físico acompanhado de eletrocardiograma, tem-se mostrado mais eficaz nesse subgru­po específico de crianças e adolescentes. Apesar de diferentes enfoques, há alguma concordância sobre pontos fundamentais na avaliação pré-participação para crianças fisi­camente ativas:

  • história clínica cuidadosa, com questiona­mentos sobre os antecedentes cardiológi­cos pessoais e familiares;
  • exame físico completo com ênfase nos aspectos cardiovasculares.

Tais cuidados são a chave de uma correta avalia­ção e principalmente do encaminhamento para exames complementares.

No que diz respeito à história clínica, devem-se pesquisar:

  • antecedentes familiares de morte súbita, es­pecialmente em jovens;
  • antecedentes de doenças específicas, como miocardiopatia hipertrófica, Marfan e arritmias;
  • relatos de sopros, hipertensão arterial sistê­mica ou pulmonar.

Quanto aos sinais e sintomas, dados como dor torácica relacionada aos esforços, síncopes e/ou pré-síncopes de repetição, dispnéia e cansaço muito intensos para atividades leves, além de relatos de asma brônquica, diabetes mellitus e obesidade, devem ser também pesquisados. No exame físico deve-se atentar para aspectos visíveis à inspeção (síndrome de Marfan), pre­sença de cianose em lábios e unhas, palpar cui­dadosamente os pulsos e suas diferenças entre membros superiores e inferiores (coarctação da aorta), além de dedicar maior atenção à ava­liação da ausculta. Essa deve ser realizada em decúbito dorsal e com o paciente de pé.

É imprescindível a realização de manobras para a correta identificação dos sopros cardíacos. Sopros sistólicos com intensidade > +++/6 em focos de base (estenoses aórtica e pulmonar), sopros sistólicos de regurgitação em borda es­ternal esquerda baixa (comunicação interventri­cular e insuficiência mitral), sopros diastólicos (insuficiência aórtica) e os sopros que aumentam com a manobra de Valsalva ou com o paciente de pé (miocardiopatia hipertrófica) deverão me­recer especial atenção. Além disso, a ausculta pode evidenciar a presença de arritmias, bem como o aparecimento de cliques e/ou desdo­bramentos de caráter patológico.

Assim sendo, em nosso entendimento, crianças e adolescentes com algumas das característi­cas mencionadas, notadamente aquelas que irão participar de atividades físicas passíveis de envolver estresse térmico mais significativo, de caráter competitivo ou não, mas com alta inten­sidade de trabalho cardiovascular e muscular, devem ser encaminhadas para uma avaliação mais detalhada, com a realização de exames complementares ou, se necessário, para uma avaliação mais especializada.

Bibliografia recomendada

1. Corrado D, Pelliccia A, Bjornrstad HH, et al. Cardiovascular pre-participation screening of young competitive athletes for prevention of sudden death: proposal for a common European protocol. Eur Heart J 2005; 26(5): 516-24.

2. Lazzoli JK, Nóbrega ACL, Carvalho T, et al. Atividade física e saúde na infância e adolescência. Rev Bras Med Esporte 1998; 4(4): 1-3.

7 Comentário(s)! Comente mais!

  1. Ana Maria Farias

    Sou professora de educação física, casos de desmaio em crianças com diagnóstico de sopro cardíaco tem ocorrido eventualmente durante as aulas. Leio sobre o assunto

    Postado em 27/04/2011
  2. Sou professora de educação física. Casos de desmaio tem acontecido em crianças com diagnóstico de sopro cardíaco. Leio sobre o assunto.

    Postado em 27/04/2011
  3. Wagner Silva Dantas

    Ana,
    Obrigado pelo contato.
    Sempre houve problemas como o relatado por vc com crianças em aulas de EF escolar. Agora então virá ainda mais a tona pela morte do menino. Devemos ter cuidado com essas comparações. Nem toda criança que desmaia a justificativa é cardiovascular e muito menos por sopro cardiaco (prolapso de valvula mitral). Devemos lembrar que um percentual grande da população apresenta essa manifestação clinica quando examinados pelo ecocardiograma ou auscultadas. Entretanto, qual o grau desse prolapso para manifestações clinicas importantes?
    De qualquer forma importante o seu comentário.
    Seja bem vinda.
    Att.,
    Wagner S Dantas

    Postado em 28/04/2011
  4. Carlos Galvani

    Dr. Wagner
    Existe algum protocolo médico de exames clínicos para crianças entre 7 e 10 anos de idade para a prática de atividades físicas ou esportivas? Se não houver, qual a melhor anamnese e exames necessários para esse fim?
    Desde já agradeço pela atenção.

    Postado em 09/05/2011
  5. Wagner Silva Dantas

    Carlos
    Obrigado pelo contato.
    Não existe uma anamnese clássimca para esse objetivo. Até porque exames mais detalhados nesse caso aumentariam demasiadamente o custo da saude publica. Portanto, é importante o prof. atentar para os sintomas referidos e mesmo algo que chame a atenção do prof. por não ser normal determinado comportamento. O pediatra tem um papel importante nesse caso. Ausculta cardiologico e pulmonar, analise ortopedica (principalmente nos adolescentes com queixa) são quesitos importantes.
    Boa sorte
    Att.,
    Wagner S Dantas

    Postado em 14/05/2011
  6. amsIDk hkarxztayhaz

    Postado em 07/07/2011
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    Postado em 08/07/2011

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