Excelente texto sobre os efeitos do exercício físico sobre os processos motores na prevenção de quedas dos idosos, bem como, os efeitos do exercício físico nos processos gerais do envelhecimento.
Sandra Marcela Mahecha Matsudo
(Médica especialista em Medicina Esportiva e doutora em Ciências pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp); pesquisadora do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul -Celafiscs)
A mobilidade, considerada a habilidade para mover-se independentemente, é uma variável extremamente importante associada à independência, à qualidade de vida e à longevidade no processo de envelhecimento. A mobilidade em atividades que fazem parte do dia-a-dia de qualquer indivíduo é especialmente afetada durante o processo de envelhecimento. Outros fatores que influem na mobilidade são o fumo, o consumo de álcool, o índice de massa corporal (IMC) e o baixo nível de atividade física.Levando em consideração a relação entre a mobilidade e o nível de atividade física, as alterações em ambos prognosticam a dependência e a morte em homens e mulheres maiores de 65 anos de idade.
Os indivíduos com alterações da mobilidade têm usualmente maior risco de morte e dependência do que aqueles que conseguiram mantê-la. Sujeitos com alterações da mobilidade que se mantiveram ativos apresentaram menor risco de morte do que os sedentários, sendo a atividade física um fator protetor contra mortalidade em indivíduos com alterações da mobilidade. A relação da força dos membros inferiores com a velocidade de andar não é linear, ou seja, nos sujeitos mais fortes não há associação, enquanto nos mais fracos essa associação existe. Isso explicaria por que pequenas mudanças na capacidade fisiológica de idosos frágeis resultam em grandes efeitos no desempenho, fato que não acontece com idosos mais saudáveis.
As alterações relacionadas ao envelhecimento na organização do músculo esquelético e as conseqüentes adaptações do sistema nervoso central (SNC) afetam o controle de tarefas simples, como a precisão da preensão manual, mas também afetam o desempenho de habilidades motoras mais complexas, como a estabilidade postural e a habilidade para andar. Alguns dos mecanismos descritos que podem explicar as alterações ocorridas com a idade no equilíbrio e na velocidade de andar envolvem os sistemas visual, vestibular e somatossensorial, que também experimentam deterioração com o envelhecimento. No sistema visual, a diminuição na habilidade para acomodação, a pouca percepção de profundidade, a redução da acuidade visual e da visão periférica comprometem a estabilidade postural, levando inclusive a desvios posturais. O sistema vestibular, que modula diretamente os reflexos posturais, apresenta redução de 40% nas células sensoriais após os 70 anos de idade. Outros mecanismos que podem estar envolvidos nas alterações do equilíbrio e do andar com o envelhecimento são os limiares de sensação cutânea e proprioceptiva que se elevam com a idade, especialmente dos membros inferiores,reduzindo a percepção de vibração da articulação do joelho. No entanto mulheres idosas que se exercitam demonstram menos desvios posturais do que as sedentárias: quanto mais ativa, menor o grau de desvio postural.
No mesmo sentido, mulheres que participaram de atividades vigorosas por períodos que variaram de seis semanas a 10 anos mostraram ter melhor equilíbrio do que sedentárias da mesma idade. A mobilidade está fortemente associada à velocidade de andar, de forma que os indivíduos que têm uma velocidade lenta para andargeralmente permanecem confinados em casa, da mesma forma que os propensos às quedas andam em velocidades desejadas e máximas lentas. A velocidade em que uma pessoa escolhe andar decresce linearmente com a idade, fenômeno que acontece não somente pela diminuição da força muscular, mas também pela redução na freqüência das passadas e, principalmente, da amplitude dessas. No sexo masculino, as alterações na velocidade de andarocorrem somente pela diminuição do comprimento da passada, enquanto as mulheres alteramtanto o tamanho como a freqüência da passada à medida que envelhecem. É comumtambém observar incremento na dorsiflexão e redução da flexão plantar do tornozelo. Outros fatores relacionados positivamente com a velocidade de andar durante o envelhecimento incluem força da panturrilha, índice de passada, horas gastas em atividades no tempo livre e altura. Já os fatores relacionados negativamente envolvem variáveis como dor nos membros inferiores e problemas de saúde. Considerando-se o equilíbrio e a força muscular os pré-requisitos mais importantes na habilidade de andar, o risco de incapacidade intensa de fazê-lo é em torno de 10 vezes maiornos idosos com alterações na força muscular e no equilíbrio do que entre aqueles com alteração em somente uma dessas variáveis.
Nesse cenário as alterações no equilíbrio diminuem a participação do idoso em atividades recreacionais e serviços domésticos pelo medo de cair, o que causa, por sua vez, decréscimo na força muscular. Da mesma forma, a menor força muscular causa cansaço ou velocidade mais lenta nas pessoas que realizam esse tipo de atividade, e essas dificuldades no andar e no equilíbrio fazem com que o indivíduo fique mais tempo sentado ou em repouso, fechando um ciclo vicioso e aumentando, assim, o risco de incapacidade funcional. Há uma correlação moderada e significativa entre o nível de atividade física do idoso e a velocidade máxima de andar, que por sua vez tem alta e significativa relação com a capacidade para subir escadas. Diversas pesquisas têm demonstrado um efeito positivo do exercício físico na velocidade de andar, como o clássico estudo de Fiatarone et al. (1990), que submeteram um grupo de idosos institucionalizados com mais de 90 anos de idade a oito semanas de treinamento de alta intensidade e encontraram, no final, um incremento de 48% na velocidade de andar. Em outros estudos com mulheres de 76 a 78 anos ficou evidenciado que 18 semanas de dois tipos diferentes de treinamento (de força e aeróbico) melhoraram significativamente a velocidade máxima de andar.
Da mesma forma, em uma pesquisa realizada com residentes de um asilo, determinando o efeito de um programa de caminhada (cinco vezes por semana, 30 minutos por dia), foi encontrado incremento de 77% no tempo de endurance para andar e de 92% na distância caminhada,enquanto a velocidade de andar não sofreu nenhuma alteração significativa. Comparando dois grupos de treinamento de força, com e sem treinamento específico do andar, alguns trabalhos têm encontrado melhoras significativas na velocidade de andar, sem alteração na amplitude de passada, e uma melhora de aproximadamente 30% na velocidade de levantarda cadeira. Os dados sugerem que provavelmente é necessário, além do exercício aeróbico e do treinamento de força, um programa de treinamento específico da velocidade de andarpara conseguir melhoras significativas dessa variável no indivíduo que está envelhecendo. Apesar da limitada literatura nessa área, têm sido sugeridos os mecanismos que explicamos efeitos do exercício na velocidade de andar com o envelhecimento. O exercício aeróbico eo treinamento de força têm mostrado impacto positivo nas alterações do comprimento da passada, na velocidade de andar e na média do comprimento da passada em homens idosos.
No entanto o exercício não influenciaria a velocidade de andar nos indivíduos idosos,exceto em ritmo mais lento. Existem evidências de que programas de exercício de cinco anos melhoram a flexão e a rotação do quadril em mulheres de 50 a 71 anos. A habilidade para se levantar de forma independente e segura de uma posição sentada é essencial para manter a independência funcional. Alguns estudos analisaram homens e mulheres com incapacidade e idades variando de 66 a 96 anos de idade e concluíram que tanto o equilíbrio quanto a força dos membros inferiores têm papéis importantes no desempenho da função de se levantar de uma posição sentada. Entretanto, a força mostrou ser um prognóstico ainda mais forte. Um programa de 10 semanas de treinamento de força de baixa intensidade em sujeitos maiores de 65 anos de idade foi suficiente para incrementar significativamente a capacidade funcional medida pela velocidade de levantar da cadeira e andar três metros, como também pela realização de algumas atividades instrumentais e não-instrumentais da vida diária, efeitos que se mantiveram por pelo menos seis meses. Embora as evidências científicas não sejam tãoclaras em relação ao efeito benéfico da atividade física na prevenção das quedas, um estudo de metanálise realizado com mais de mil indivíduos de 65 a 97 anos de idade que participaram de um programa de exercícios de fortalecimento muscular e treinamento do equilíbrio desenhado especificamente para prevenção das quedas mostrou redução de 35% no número total de quedas e no número de quedas associadas a lesão. Na prevenção de lesões, os indivíduos com mais de 80 anos tiveram benefício significativamente maior do que aquelesde 65 a 79 anos. O programa de exercícios foi igualmente eficiente em diminuir as taxas dequeda naqueles com e sem antecedentes de quedas anteriores. Já outra metanálise publicadahá poucos meses em idosos com alterações cognitivas mostrou efetividade limitadada atividade física na prevenção de quedas em pacientes com esse tipo de problema. Apesar das limitadas evidências científicas, a atividade física e o exercício têm papel fundamental na manutenção de força muscular, postura, equilíbrio e flexibilidade, que podemcontribuir na prevenção primária das quedas durante o processo de envelhecimento. Considerando também o papel benéfico da atividade física em prevenção, tratamento e controle das doenças crônicas não-transmissíveis (doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, hipertensão arterial), a atividade física tem também papel essencial na prevenção das quedas por causas secundárias associadas a essas doenças.
A recomendação da atividade física para prevenção das quedas envolve, portanto:
1. programas específicos de exercícios que trabalhem força muscular, flexibilidade,mobilidade articular, agilidade, equilíbrio e transferência de peso. Apesar de não existir consenso específico sobre freqüência e duração, a recomendação é de no mínimo duas a três vezes por semana;
2. atividade física para a saúde. A fim de se obter os benefícios gerais para a saúde, arecomendação atual da atividade física preconiza a prática de pelo menos 30 minutosde atividades físicas moderadas, pelo menos cinco dias na semana (de preferência todos),de forma contínua ou acumulada (em sessões de 10, 15 ou 20 minutos). Consideramos, assim, que o papel do profissional da saúde é de no mínimo recomendar a mudança ou a manutenção de um estilo de vida ativo, não somente para prevenir as quedas e as lesões decorrentes das mesmas, mas para manter, melhorar ou recuperar a saúde e a qualidade de vida durante a idade adulta e o processo de envelhecimento.
Bibliografia recomendada
1. Matsudo S. Envelhecimento e atividade física. Londrina: Midiograf, 2001.
2. Robertson MC, Campbell AJ, Gardner MM, Devlin ND. Preventing injuries in older people bypreventing falls: a meta-analysis of individual-level data. J Am Geriatr Soc 2002; 50: 905-11.
3. Hauer K, Becker C, Lindemann U, Beyer N. Effectiveness of physical training on motor performance and fall prevention in cognitively impaired older persons: a systematic review. Am JPhys Med Rehabil 2006; 85: 847-57.
4. Jones GR, Jakobi JM, Taylor AW, Petrella RJ, Vandervoort AA. Community exercise program forolder adults recovering from hip fracture: a pilot study. J Aging Phys Act 2006; 14: 439-55.


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