Prevalência das doenças cardiovasculares na população japonesa do Brasil

Prof. Wagner Silva Dantas

Revista SOCESP Ano III - Número 4 - Julho/Agosto - 2008

japonesO Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (UNIFESP) desenvolve, desde 1993, um estudo denominado Japanese-Brazilian Diabetes Study Group. Na primeira fase, foram selecionados para a pesquisa 647 moradores do município de Bauru, no interior paulista, todos de origem japonesa, nascidos no Brasil ou no Japão, sem qualquer miscigenação com ocidentais. Verificou-se uma alta prevalência de diabetes em comparação com a população brasileira ou aos japoneses residentes no Japão.

Segundo o Dr. Luigi Brollo, médico da Disciplina de Cardiologia da Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), isso acontece especialmente pela mudança de costumes, dos hábitos alimentares, redução da atividade física e elevação do estresse.

“Esses indivíduos alteraram totalmente sua forma de vida com relação à praticada no Japão. Os novos hábitos trouxeram diversos malefícios à saúde, entre eles o aumento substancial do diabetes e da síndrome metabólica”.

Para o pesquisador, as principais diferenças responsáveis pelos problemas de saúde são a falta de exercícios, alimentação menos saudável e o estresse emocional. “No Japão, ou na chegada ao Brasil, a atividade rural era uma atividade física que hoje muitos deles não têm. Além disso, da dieta baseada em algas,  peixe e arroz, pouco sobrou. Hoje imperam os hábitos dos brasileiros, com um cardápio repleto de carnes vermelhas e gorduras”.

ALERTA

Há mais de 100 anos ocorreu a chegada do navio Kasato Maru ao Porto de Santos, vindo de Kobe, no Japão. Nas décadas seguintes, ainda antes da Segunda Guerra mundial, os japoneses migraram para o Brasil, especialmente para o Estado de São Paulo. Como no restante do país, buscavam terras férteis, oportunidades de trabalho na lavoura.

Atualmente, os descendentes destas famílias do estudo da UNIFESP, assim como os demais orientais residentes em diversas partes do Brasil, correm sérios riscos se não receberem orientação e mudarem seus estilos de vida.

“Nosso país tem a maior população de japoneses e descendentes fora do Japão. E não só aqui, mas em todo mundo, inclusive no Japão, a globalização está introduzindo nesta população hábitos ocidentais, que são prejudiciais. Os japoneses estão fadados a ser a “potência diabética”.

Segundo o Dr. Brollo, o motivo do alerta está em alteração genética freqüente nos orientais, que faz com que as células pancreáticas fabriquem menos insulina do que o normal e a ingestão de alimentos mais calóricos seja o fator desencadeante para o surgimento dessas doenças.

“Nosso estudo refletiu os mesmos resultados encontrados em trabalhos semelhantes realizados em outras partes do mundo, como nos Estados Unidos, onde também há grande imigração japonesa com padrão de vida bem diverso do de antigamente.”

CONCLUSÕES

O Dr. Luigi Brollo pertence ao grupo de pesquisadores da segunda etapa do programa, iniciada em 2000. Neste trabalho, estudando 1042 nipo-brasileiros, verificou-se um aumento grande não apenas no diabetes, mas da síndrome metabólica, tanto nos habitantes da primeira geração, nascidos no Japão, quanto nos filhos dos mesmos.

“O Diabetes na cidade de Bauru é quase 7 vezes o valor que encontra no Japão, ou 3 vezes superior às taxas brasileiras.” A síndrome metabólica é cerca de 2 vezes maior que a existente no Japão. Também foi verificada maior prevalência de doenças isquêmicas do coração e fatores de risco como a hipertrofia miocárdica.

Em 2007, nova avaliação dessa população foi realizada, possibilitando observara presença de novos casos de diabetes, síndrome metabólica e doenças isquêmicas do coração, assim como a evolução dos avaliados em 2000.

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