Prof. Wagner Silva Dantas
Esse texto foi escrito em homenagem ao maior especialista em criança e exercício físico, Prof. Dr. Oded Bar-Or da McMaster University (Canadá), falecido recentemente, o qual ambos os autores do texto abaixo foram orientados pelo Dr. Oded Bar-Or durante os estudos de doutorado e pós-doutorado, respectivamente. Extremamente rico em informações sobre o aspecto da criança relacionado ao exercício físico, o texto dá dicas de como podemos lidar com a criança doente em relação ao afastamento ou não da prática do exercício físico.
Flavia Meyer (Professora-adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Claudio Gil S. Araújo (Diretor-médico da Clínica de Medicina do Exercício (CLINIMEX) e coordenador do Curso de Especialização em Medicina do Exercício e do Esporte (MEE) da Universidade Estácio de Sá (UNESA) no Rio de Janeiro
Historicamente, há uma tendência a restringir o exercício físico e até mesmo as aulas de educação física escolar em crianças com problemas de saúde, o que leva a um padrão precoce de sedentarismo. Embora essa restrição ocorra devido a uma eventual limitação física conseqüente à evolução natural da doença, mais comumente o sedentarismo nessa criança apresenta outros motivos, como medo, vergonha, isolamento, ignorância e superproteção. Antes de impedir ou recomendar exercícios físicos para uma criança doente, devemos considerar as seguintes questões:
- a criança é suficientemente ativa?
- se não for, a causa é física, psicológica ou social?
- como está a condição física (componente aeróbico, força e flexibilidade) da criança?
- o exercício físico beneficiará ou será prejudicial à saúde da criança?
Em verdade, utilizando medicina baseada em evidências, são raros os casos clínicos em que o exercício físico está formalmente contra-indicado para crianças. A Academia Americana de Pediatria (AAP), em seu posicionamento de 2001, contra-indicou completamente o exercício em apenas duas situações: febre (situação temporária) e cardite (infecção no músculo do coração). Para a maioria das outras doenças deve-se fazer avaliação individual, mas a liberação para o exercício dependerá da intensidade do esforço e da probabilidade de colisão ou contato durante a atividade ou esporte. Para garantir a segurança e adequar à prescrição de exercícios, uma avaliação médica especializada é recomendável. Os objetivos dessa avaliação também são detectar condições predisponentes a lesões ou que possam afetar a saúde geral, bem como aquelas que limitariam a participação em alguns esportes e/ou que requerem atenção especial. Por exemplo, em crianças com apenas um rim, com aumento do baço ou fígado e com convulsões, deve-se restringir a participação em esportes de contato ou choque.
Por outro lado, o exercício pode, muitas vezes, desempenhar um papel terapêutico relevante na criança enferma. Como exemplos, podemos referir a obesidade, condição em que o balanço energético pode estar diretamente afetado; as dislipidemias, em que o aumento do exercício físico regular pode melhorar o perfil lipídico; e o diabetes mellitus (DM), visto que manter-se fisicamente ativo poderá diminuir a resistência e/ou a necessidade de insulina. Mesmo não curando determinadas doenças, o exercício regular na criança enferma pode provocar benefícios similares aos que ocorrem numa criança saudável, incluindo melhora nos componentes da aptidão física, além de facilitar sobremaneira a sua socialização. Outro dado importante, o exercício físico regular contribui para a prevenção das doenças cardiovasculares (DCV), auxilia a manter saudável o peso corporal, a pressão arterial e o perfil lipidêmico. Também promove uma boa postura e aprimora o equilíbrio, assim como previne a dor lombar e aumenta a densidade óssea. Não menos importante, a criança que se mantém ativa tende a adquirir hábito e estilo de vida mais saudáveis e, conseqüentemente, corre menos risco de se tornar um adulto sedentário. O exercício para crianças enfermas pode aumentar a auto-estima, diminuir o estresse e a depressão, e reduzir o isolamento social. Ao recomendar exercício para essas crianças, esta mos indicando que elas podem e devem atuar como os seus amigos saudáveis. Devemos enfatizar mais as suas habilidades do que suas limitações físicas. O exercício difere de remédio, dieta ou repouso, onde a criança se sente diferente dos outros. Quando indicado, o exercício deve ser mantido de maneira regular, portanto, deve ser prazeroso, divertido e confortável para a criança, o que pode ser alcançado através de jogos e prêmios.
As crianças com problemas de saúde que praticam atividade física enfrentam os mesmos riscos que uma criança saudável. Contudo, elas podem apresentar riscos adicionais específicos da doença, que devem ser observados pelo médico responsável. Por exemplo, o exercício pode desencadear episódios de asma na criança asmática ou crises hipoglicêmicas na criança diabética. Esses riscos podem ser evitados ou minimizados com abordagem clínica apropriada e não devem levar à restrição do exercício. Ao contrário, os profissionais da saúde devem sempre sugerir atividades adequadas para uma determinada doença e educar quanto aos procedimentos para evitar ou minimizar possíveis riscos. Portanto, quando bem prescrito, o exercício pode ser um componente importante para o melhor controle clínico na maioria das crianças com problemas de saúde. Todos os profissionais de saúde e familiares devem ajudar a criança a participar de atividades físicas que sejam divertidas e seguras.


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