Matéria escrita por um das maiores cardiologistas do esporte do Brasil , Dra. Luciana Diniz Nagem Janot de Matos (Doutora em cardiologia pela USP, cardiologista do Centro de Reabilitação do Hospital Israelita Albert Einstein e da Unidade de Reabilitação Cardiovascular e Fisiologia do Exercício do Instituto do Coração) publicada na Revista SOCESP Ano III - Número 4 - Julho/Agosto - 2008. Ela comenta alguns critérios no afastamento do atleta das atividades de alta performance.
Data de 1889 a primeira descrição do termo “coração de atleta” quando o então médico sueco S. Henschen, por meio de exame cuidadoso e técnica simples de percussão torácica, observou e afirmou que os corações de esquiadores cross-country apresentavam dilatação e hipertrofia em ambas as câmaras cardíacas, esquerda e direita, após realização de exercício físico intenso 1 . Hoje, com todos os adventos de diagnóstico por imagens disponíveis, o termo “coração de atleta” é bastante aceito e utilizado como sinônimo da hipertrofia cardíaca conseqüente ao treinamento físico. É representado tanto por aumento nas dimensões ventriculares, como pela espessura de parede e massa ventricular, com função sistólica e diastólica preservada 2 . Apesar de essas adaptações estruturais cardíacas, decorrentes de um treinamento físico de alta intensidade e volume, realizado de forma sistemática e regular por atletas de alto rendimento, ser aceitas como fisiológicas, ainda há muita discussão na literatura a respeito dessas adaptações e de suas repercussões em longo prazo.
É muito importante salientar que o aumento da cavidade ventricular, bem como o aumento da espessura ventricular, decorrente de treinamento físico, geralmente é discreto na maioria dos atletas, com valores dentro da normalidade, com diâmetro diastólico ventricular esquerdo (DDVE) de até 55 mm e parede ventricular até 12 mm.
Entretanto, em uma minoria de atletas (14%), essas adaptações podem chegar a níveis extremos, muito similares aos de pacientes portadores de miocardiopatias dilatadas, com valores de DDVE maiores que 60 mm. Em apenas 2%, os valores de parede ventricular ultrapassam o limite de 13 mm, o que poderia sugerir hipertrofia patológica 3 . Portanto, nos casos de adaptações extremas, é fundamental à diferenciação cuidadosa entre a possibilidade de uma conseqüência fisiológica ao treinamento físico ou a uma doença, pois é a correta interpretação desses achados que ditará a conduta, que pode significar o fim da carreira profissional do atleta. Nesse contexto, devemos sempre considerar características como a superfície corpórea, modalidade esportiva realizada, sexo e idade na interpretação desses achados, pois são os principais fatores de influência e que apresentam correlação direta com a magnitude das adaptações fisiológicas provocadas pelo treinamento físico. Apenas 25% dos casos são decorrentes de genética ou mesmo de fatores ainda desconhecidos 4 .
Outra característica marcante da adaptação fisiológica vista nos atletas e muito útil na diferenciação com doença é a capacidade de reversão com o descondicionamento físico. Geralmente, 3 a 6 meses de interrupção do treinamento físico são suficientes para uma adequada interpretação e conduta. Entretanto, é importante termos em mente que nos casos de hipertrofias extremas, a reversibilidade da dilatação da câmara cardíaca pode ser incompleta. Estudo longitudinal com ecocardiograma 5 reportou que 20% de atletas de alto rendimento persistem com cavidades com diâmetro aumentado mesmo após cinco anos de interrupção de treinamentos intensos. Tal fato pode ser correlacionado à manutenção de atividades recreativas ou aumento da superfície corpórea por ganho de peso, como citado no trabalho.
Por tudo isso exposto, podemos considerar o “coração de atleta” como uma adaptação fisiológica e benigna. Entretanto, quanto ao remodelamento ventricular extremo e os seus efeitos em longo prazo, até o momento, permanecemos com dúvidas similares às de dois séculos atrás, pois não há estudos longitudinais com grandes populações de atletas que possam tornar essa afirmativa uma certeza.
Referências:
- 1) Thompson P. D. & Bruce D. Historical Lecture. Historical concepts of the athlete’s heart. Med Sci Sports Exer. 2004 Mar; 36 (3): 363-70.
- 2) Pluim B. M., Zwinderman A. H., Laarse van de A., et al. The Athlete’s Heart. A meta-analysis of cardiac structure and function. Cicrulation. 1999; 100: 336-44.
- 3) Pellicia A., Culasso F., Di Paolo F. M., Maron B. J. Physiologic left ventricular cavity dilatation in elite athletes. Ann Intern Med. 1999 Jan 5; 130 (1): 23-31.
- 4) Maron B. J., Pellicia A., The heart of trained athletes: cardiac remodeling an the risks of sports, including sudden death. Circulation. 2006 Oct 10; 114 (15): 1633-44.
- 5) Pellicia A., Maron B. J., De Luca R., Di Paolo F. M., Spataro A., Culasso F. Remodeling of Left Ventricular hypertrophy in elite athletes after long-term desconditioning. Circulation. 2002 Feb 26; 105 (8): 944-9.

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